November 08, 2009

Urban Soul


O Mac sobre a cama , ligado na camara, mostra quando as pernas abrem e o homem entra no quarto. A frase saiu num jorro, um jato de alívio e alegria sobre a boca aberta e lubrificada até os dentes.

A palavra “pau” dava uma conotação pornográfica, grosseira, indesejável. O seu membro, o seu cacete, seja lá o que for, menos pau. De pau eu não gosto! – Ela disse. Vamos recomeçar: e o cacete lubrificado até os dentes? …tampouco parece servir.

Surgem dúvidas. As palavras ficam suspensas no ar, um vago aroma da pizza mostra dificuldades no cruzamento entre o erotismo e a sacanagem.

Você quer comer algo, quer uma salada? A interrogação é essa dúvida permanente.

Esse negócio de pau entrando é uma agressão grosseira. Veja como Marçal Aquino narra Eu ouviria as piores notícias dos seus lindos lábios. Está tudo lá, mas sem grosseria, sem baixaria. Tem certas coisas que gostamos de ouvir em certos momentos, mas não na maioria das vezes.

As palavras falam de encontros matinais. São iluminadas por uma cor que faz o mundo repousar em certa ordem. O lençol limpo sobre a cama é a única testemunha que resta. O erotismo é barrado na porta das boas maneiras. Os lugares são marcados e as horas têm seu destino próprio.

Não use essa palavra, faça-me o favor!

November 04, 2009

Cartas de Amor


Escrevo cartas de amor para a mulher que amo, faço sexo com outras mulheres. Foi isso que ele me disse, caro leitor.

Perguntei-lhe como era isso, como era possível essa contradição, ele nem mesmo piscou e disse à queima roupa: a vida é assim mesmo, cheia de contradições e becos sem saída. Não posso fazer nada. É assim que a vida acontece para mim.

Enquanto olhava seu rosto marcado pela distância, pensei nas minhas leituras. Nas realidades que tomava conhecimento através dos livros e das revistas. Meu tempo estava dedicado a escrever sobre a memória, sobre lembranças e esquecimentos. Tinha que preparar um texto para meus alunos, mas meus pensamentos giravam em torno daquela declaração.

Enquanto a Europa sofria sob os escombros das cidades destruídas, a América erguia suas torres cintilantes para abrigar um mundo de sonhos e muito sexo. As cartas de amor eram entregues entre flores vermelhas e gérberas guardadas no fundo da alma.

De repente, caro leitor, não mais que de repente, eis que chega um e-mail dizendo: esperemos. E, desde então, espero, não faço outra coisa senão esperar. Espero um sinal, um signo de arrependimento, uma semiose da desistência e da comprovação de uma vida monogâmica e previsível.

O mundo, caro leitor, é isso aí. Esse vai e vem de palavras, desejos e esquecimentos.

November 03, 2009

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November 02, 2009

Em memória de mim


Não queria usar a expressão “caro leitor” por considerá-la um tanto quanto vaga, indeterminada. Ainda assim, ou por isso mesmo, será usada de agora em diante.

O dia dois de novembro é feriado porque é o dia dos mortos. Para mim, desde pequeno, esse sempre foi um dia muito especial. Não só porque era um feriado, mas por um sentimento raro por conta daqueles que eram lembrandos. O dia dois de novembro é uma data com_e-morativa. É o dia que a sociedade tornou especial, um feriado, para exercer o enigmático feito de lembrar algo que não pode, ou não deve ser esquecido. Com o passar do tempo, dois de novembro é, cada vez mais, um dia de festas, buzinas, praias, comidas, filmes, barulhos e esquecimentos. Os mortos que descansem em paz.

Fazei isso em memória de mim. O pedido de Jesus é para não esquecê-lo. A vida é esse encontro enigmático que se dá no tempo. Passado, presente, futuro e esquecimento.

Responda-me, caro leitor, para não ficarmos nesse blá-blá-blá, o que podemos aprender com isso?

Podemos aprender a esquecer muitas coisas e a lembrar outras tantas. E, até mesmo, construir um futuro, se é que se pode construir um futuro. O tempo das nossas vidas, os diferentes tempos das nossas vidas, distribuidos pelas idades que vivemos, são intervalos de uma maravilhosa dádiva da natureza.

A expressão “maravilhosa dádiva da natureza” é um clichê, um chavão que está em quase todos os textos e declarações que traduzem encantamento de baixa categoria estética. Um pinguim sobre a bolsa Prada, vermelha, com detalhes dourados.

Mas, por favor, responda-me, aonde isso nos leva?

A lugar nenhum ou a muitos lugares. Depende, como sempre, caro leitor, da forma como encaramos as palavras e como jogamos com elas. Como atribuimos significados estranhos e fazemos montagens, cujos sentidos abrem mágicos mundos raros e desconhecidos.

Fazei isso em memória de mim
. No dia dois de novembro as pessoas, muitas pessoas, não todas, é claro, vão aos cemitérios e levam flores para seus parentes, para as pessoas amadas que morreram. Outras vão à praia, ao cinema, viajam no fim de semana prolongado e voltam, depois, aos seus cotidianos afazeres.

A vida é assim. Você só tem que preencher um formulário e enviar. Logo estará cadastrado e nunca mais será esquecido. Nem mesmo depois da sua morte. Até que alguém tenha a piedade de enviar uma cópia da declaração de óbito, continuarão chegando as cartas e os e-mails de aniversário, em sua defunta conta no gmail.

Isso, esse esquecimento, é uma mega esfera com um espelho digital, colada no reflexo da memória contemporâna, exibindo o banco de dados das pequenas lembranças, guardadas no youtube. Uma memória, uns dois gygabites de novembro digital, uma especulatrix imagética e fantasmática.

Responda-me, caro leitor, ainda é possível encontrar sentido nisso? Nessas metáforas gastas, nos delírios desses longos fins de semana regados a solidão e leituras, nas compras de depois de amanhã? O que se pode fazer com esse perpétuo fluxo do cotidiano?

Como lembrar os mortos?

October 31, 2009

Runas


Mergulhado na leitura de LTI, de Victor Klemperer, descubro as Runas evocadas no período negro da fome de morte. As palavras trocam de palco, trocam de cenário e sentido. Proliferam currículos e memórias, proliferam esquecimentos e temores. Desço as esquálidas dobras do caminho e encontro as Runas do Esquecimento, dos Medos e das Fantasias.

Um sorriso fica esquecido no canto da página, os olhares tomam outras direções e procuram o vão vazio da escada. Debaixo dela estão guardadas as memórias e os fragmentos esquecidos nas caixas embaladas, com fitas do Senhor do Bomfim. Os deuses estão empacotados em conserva e exalam cheiro de naftalina, alfazema e arruda.

As imagens, aquelas que traduzem o ofício do poeta, vagam em manhãs de quartas feiras e de domingos insondáveis. Portugal me espera, me desespera, me procura. Portugal é essa tristeza que guardo de ti nesse pós doutorado digital que vai custar mil euros, mil palavras e outros valores, esquecidos nalguma dobra do parque de Palermo, de alguma calle Florida.

Olho as Runas, os oráculos da nossa história e da tua enigmática ausência. Percebi tudo isso em um domingo de manhã. Estávamos tomando um café na cozinha. Eu olhava teus olhos e desejava tua existência cruzar perpetuamente a minha. As Runas dizem que o tempo é de silêncio. Não creio nelas. Creio em ti pois tenho certeza que não dizes nada. Não ouço mais que o teu olhar, teu enigmático desaparecimento.

October 30, 2009

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sem exclamações, sem pontos e vírgulas.
aqui tudo é indagação, dúvida, pergunta.

onde estou, onde estás, porque não respondes
o que seria do mundo sem vc.

Se quiser saber mais, pergunte. Tenha dúvidas, investigue, procure, corra atrás.

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October 29, 2009

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October 28, 2009

Interrogações




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Traço com asteriscos a linha que divide o tempo em passado e presente. Tento dominar o turbilhão de palavras e idéias que aparecem de todos os lados. Como gárgulas que ganham vida, as palavras fazem voos razantes sobre os desejos e os planos de organizar a vida do futuro, dos próximos dias. Tropeços e ansiedades brotam dos acontecimentos, indiferentes ao poder de determinação que havia sido combinado dias atrás. Erros, se assim se pode dizer, são cometidos involuntariamente. Eles resultam, quase sempre, de uma exagerada forma de expressar sentimentos e desejos. Tudo parece residir no plano das emoções sem passar pelo planejamento sistemático do pensamento lógico. É um jorro, um desaguar de palavras carregadas de interrogações e fantasias. Uma espécie de verborrágica sessão de análise sem a menor preocupação em sistematizar nada. Sentimentos e emoções que chegam, na maior parte das vezes, entre quase ódios e indeterminadas raivas.

Vejo o rostinho de Isabela desmanchando em lágrimas só porque a mãe não deu o brinquedo. Lágrimas e sentimentos que parecem anunciar o fim do mundo. Descabelada, o rosto expressa um sofrimento que parece traduzir as dores mais trágicas. Logo em seguida tudo cessa e cala, para voltar à normalidade, e o mais lindo sorriso surgir no rosto da criança, que viveu tudo aquilo como um sonho, uma distante e inexistente fantasia.

A filosofia é o pensamento sistemático. Qual filosofia? A interrogação não é uma exclamação, não é um contar vitórias ou atitude de vanglória soberba. A interrogação traduz a fragilidade impressionista que navega em ondas de cor, na delicadeza da flor, na certeza da morte, na dor do adeus. Tudo nessa interrogação é carregado da fragilidade humana, da indeterminação das horas, da esperança daqueles que não ultrapassam as definitvas portas do inferno.

Eis o que vejo, o que sinto e interrogo nessa manhã de pouca luz, de nuvens carregadas que estão além dos edíficios que vejo agora na varanda dessa cidade, megalópolis assustadora.

October 26, 2009

Espera


A praia da Espera é calma. Nela desembarcam os mercadores de flores e esperanças. A palavra sobre a pedra é levada pela maré. O desejo espreita a resposta. A calma assenta o olhar. Megapixels do teu olhar marcam o nascer do dia.

October 25, 2009

Brincar




A linguagem é um jogo, um jogo de linguagens. Mas esse jogar é uma brincadeira que recomeça tão pronto o jogo termina. A criança joga e nós jogamos fora as palavras ou guardamos silêncio e prudência naquilo que não dizemos.

O que está em jogo parece ter a importância do próprio destino. Mas, quando brincamos, o jogo está associado ao prazer da criança quando vê outra criança que, sem mesmo perguntar primeiro pelo nome, simplesmente indaga: você quer brincar?

A filosofia cuida da linguagem desde o seu começo. Durante toda a sua vida, essa moça tão cheia de sonhos, sempre escarafunchou a caixa da linguagem. Essa caixa guarda os segredos e o destino do homem. E das mulheres, é claro.

O e-mail tinha duas pequenas perguntas. As perguntas eram simples mas difíceis de ser respondidas. O silêncio, na caixa da linguagem, é o oculto que foi para a face escura da lua. Talvez definitivamente deletado do desejo ou transformado em angústia e dúvida.

O jogo é a vida que escolhemos a cada lance do peão. A linguagem é quem diz o lugar do peão e quais as estratégias na construção dos sonhos, nossa procura para estimular em nós o melhor da humanidade. Para muitos, isso é uma brincadeira pueril, para outros é uma atividade difícil, transformadora, mas sempre muito perigosa.

A pobreza da vida é expressa na pobreza da linguagem. Não só no uso dos termos mas também nas formulações limitadas, na ausência dos vôos do espírito, na incapacidade de sonhar e criar novos mundos. Tudo é claro, demasiado dado. Aparentemente óbvio. E a vida passa entre um gole e um 2 a 1.

Os limites entre a pobreza de espírito e a exuberante abundância do reino da poesia vão tatuando nossa alma ao longo da vida. Cada marca da nossa história, o orgulho e o prazer mais elevado que nos permitimos viver, remete sempre a Shiller: “É o espírito que constrói o corpo à sua imagem”.