December 01, 2009

Andanças


O matemático, pressentindo o trágico fim, fez os cálculos mais lindos, mais loucos e verdadeiros. Com eles foi possível compreender a natureza das mudanças. Quando mudamos para deixar tudo inalterado e quando mudamos para nada mudar. Alterar é desassossegar-se no rumo da alteridade, o caminho que abre a porta para o outro, para além da periferia de mim mesmo. A matemática não sabe que não sei matemática. Ela brinca com seus cálculos exatos e deixa que a luz do dia desapareça no início da noite.

Mudanças nas andanças e nos passos da dança. No cálculo impreciso da vida, nas trocas que fazemos, nos beijos que sonhamos enquanto embalamos nossos sonhos em incertas esperanças.

Vem o natal, vem o carnaval e o ano vai começar outra vez. Uma vez mais, e sempre mais, só importa esse desejo de voltar ao teu corpo e sentir tua presença. O dasein esquecido e guardado na lembrança.

November 27, 2009

Mudanças


Mudar é um pretérito imperfeito do subjuntivo. Regular, conjugado como fácil, mudar é verbo enigmático. Logo a primeira pessoa do presente do indicativo é o estranho mudo. Eu mudo é vago e silêncioso. Mudo de casa para ficar mais perto da possibilidade de ser feliz. Não tenho certeza, apenas mudo. Se estou mudo fico em silêncio esperando que minha mudança mude o meu silêncio e o meu sorriso. Tudo parece estar em permanente mudança. Mudam os dias no calendário, mudam as horas e o tempo passa mudando tudo à sua volta. E, ainda assim, permaneco mudo diante dessas mudanças que não mudam a minha dor. Plus ça change, plus c’est la même chose.

“É temerário investigar o desconhecido; mais temerário, porém, é pôr em dúvida aquilo que se conhece”. – Kaspar. A epígrafe é certeira, flecha precisa.

Dias e noites buscando palavras que traduzam os sentimentos incertos. Palavras leves, cruas, tenras, ditas pela manhã, com o frescor da manhã. Nada harmônico, tudo sangue escorrendo pelas pernas e a bunda pousando suavemente no prato grande, cheio de leite. Esse parágrafo será objeto de assepsia tão pronto a empresa responsável pelos serviços mande alguém. Acionamos as empresas e elas nos fornecem os serviços para a mudança. Os serviçais, os empregados domésticos, os prestadores de serviço avulso, todos eles orquestrados para fazer a mudança. E quando tudo fica pronto fica também claro que nada foi alterado.


O outro mundo não importa. A política, a economia, a cultura, os destinos da humanidade nada disso importa. Apenas o que sonho no meu sono sem acordos com o mundo. Nunca fico de acordo ou acordado num estado de vigília obedecendo às ordens de ficar atento e desperto para os acordos feitos na calada da noite, na madrugada dos meus sonhos.


Sonho que subo correndo a montanha. Resvalo em pedras mas alcanço o abrigo próximo
e interrompo a descida para o abismo. O suor corre pelo rosto, desce pela ladeira íngreme, pelo corpo tenso, banhado em energia e desejo. É em você quem penso seguindo esse caminho. Lá, no alto, quem sabe, verei tua fantasmagoria.

Os dias correm. Subo essa montanha todos os dias da minha vida. É nela que guardo minhas esperanças e desfaço meus sonhos. As palavras são as esperanças e os sonhos são fantasias povoadas de palavras. Não tenho nada além desse corpo organismo com poros abertos e atentos, marcado pelo desejo de subir cada vez mais alto, de estar cada vez mais próximo.

Corro para ti. Para dentro do teu corpo aberto em carne e suores, líquida existência que flutua na minha boca. As partes moles, leves, vermelhas, moradas, pelos suaves, macios, dobrados, repuxados e doces.


Subo correndo a montanha. Resvalo em pedras mas alcanço.
Nunca me canso, esse é sempre o pouso do meu encanto.

November 24, 2009

Uma palavra



.
.
.
.
Se fosse possível palavra, qual seria?
.
.
.
.
.
.
.
.

November 23, 2009

November 22, 2009

.

.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.

November 18, 2009

Raio




Perdoem, mas tenho que lançar mão, mais uma vez, da expressão “meu caro leitor”. O texto abaixo é daqueles que resultam de frases, copiadas e coladas, de sites e blogs diversos. Tal qual uma máquina textual primitiva, a atividade de copiar e colar frases tem a mesma estrutura de copiar e colar sentimentos. Muitas das frases e imagens encontradas, nessas navegações aleatórias, revelam latentes e curiosas lógicas. O uso da atividade de copiar, ampliado pela maravilha do processamento digital, na produção de auto-retratos, tornou-se um fenômeno que desencobre e alimenta a vaidade humana.
Trata-se aqui, caro leitor, de ver como ficou simples, imediato e banal expor desejos infantis, imagens de flores, animais, paisagens, visitas de parentes, fins de semana no campo, para o mundo inteiro.

A internet vai permitindo viagens pelo que resta disso que um dia se conheceu como alma humana, revelando seus detalhes grotescos, sublimes e banais. As redes sociais, os metaversos dos granfinos, a invasão cultural na senzala, as escalas astronômicas das trocas comerciais, todos contribuindo para o homem depois do homem.

O nome do poema é Raio. Será, caro leitor, o Raio apenas uma montagem de sentimentos, um facilidade computacional? Avalie.

. . . . . . . . . . . . . . .


O dia já raia, vou partir. Voar para bem longe.

Você tem algo para mim.
O que você tem que tanto quero?

Segredos, magia, fortuna, saúde, vaidade, poder, riquezas, alegrias, sorrisos? O que você tem para mim, pernas, braços e abraços da cabeça aos pés?

O que move essa viagem é a lembrança e o desejo de voltar a ver teus olhos. É procurar o sentido que o sol aponta, que faz a planta procurar a luz. Esperando flores, esperando cores. É assim que caminha essa busca da arte no deserto da ciência, nesses diálogos impossíveis e, talvez por isso mesmo, pertinentes.

Fernando Pessoa, esse outro, para além de uma filosofia e de um destino porto guês, anuncia a sina do sol. É inútil, enigmático, claro e lá e cá, em toda parte e em lugar algum. É só isso, desejo. E sentir o sabor do hálito vindo, no enigmático perfume da flor. O cheiro ácido, doce, amargo, penetrando um sorvete de maracujá, amarelo y Van Gogh.

"Se pois é lei do fado / Que sempre a dor / Caminhe negra ao lado / Do verdadeiro amor, / Vamos sofrendo a nossa / Com os demais". É um Sonho de uma noite de Verão - Essa desdita que sempre fez no coração humano um holocausto.

Adoro quando me beijas... quando me tocas... quando ficamos agarrados um ao outro.

O dia já raia, vou partir. Voar para bem longe.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

É com você, caro leitor!

November 17, 2009

?. . . . . . . . . . . . ¿

.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.

November 16, 2009

Ilusões


A vida promete suas ilusões. Foi isso que vi escrito e foi a partir dessa conclusão que resolvi viver a vida como promessa, ilusão. Não mais o real, o lógico ou consequente fazem sentido nesse novo mundo, nessa nova forma de viver a vida. O que não esperava é que a tal da realidade, das exigências lógicas e das expectativas de uma vida consequente continuassem insistindo sobre as ilusões e as promessas. Até mesmo elas estavam contamindas com as esperanças falsas da realidade, com as ilusões da própria realidade.

Ilusões prometidas... um paraíso perdido, um jardim do édem, um oásis no deserto da vida? É tão fácil prometer essas coisas, tão fácil prometer uma vida eterna, eternamente gozando maravilhas. Eu só espero num olhar, no té para dos, algumas fotos com sorrisos, uma banca de flores, tocar a ponta dos dedos.

November 13, 2009

Té para dos


Escrever tornou-se uma necessidade imperiosa para a sobrevivência física e mental diante da ausência. Dias e noites buscando palavras que traduzam os sentimentos incertos, os pensamentos distantes e o desejo explodindo pelo corpo.

Dias de solidão e leitura. Livros e mais livros. Leituras cuidadosas, perguntas e dúvidas dirigidas em todas as direções e olhares. Retomadas de palavras, estranhas montagens, construções as mais absurdas, combinações inesperadas, cálculos os mais infames.

A “necessidade imperiosa” implicava perguntar pela validade e certeza dos pensamentos e das palavras. Tentativas de sanear eventuais delírios, obsessões absurdas ou uma patologia da alma que não conduzisse a nada. Era o trabalho de escavar palavras que ajudassem à sobrevivência, a diminuir a dor da dor.

A famosa frase de Talleyrand, ecoando através do tempo, continua sem solução. “A linguagem existe para ocultar o pensamento do diplomata (ou de uma pessoa ardilosa e suspeita)”. Isso é ou não uma verdade?

Muitos acreditam, parece ser o caso de Jacques Lacan e Victor Kemplerer, que se trata do contrário. “A linguagem sempre revela o que uma pessoa tem dentro de si e deseja encobrir, de si ou dos outros, ou que conserva inconscientemente… uma pessoa pode fazer declarações mentirosas, mas o estilo deixará as mentiras expostas”.

O “amor”, a “adoração”, o coração romântico das frases feitas, as orações budistas de desejos vazios, as declarações do Banco Central, as estatísticas que nós mesmo falsificamos, as lágrimas que nem mesmo choramos, as metas cumpridas, tudo isso é uma armadilha, uma droga barata correndo pelas veias sujas, entupidas.

Daí as runas, os sinais mágicos que guardam os autênticos sentimentos. As imagens e as metáforas loucas, insanas, verdadeiras mas difíceis de serem compreendidas. Mudei de casa, viajo em dezembro para o Natal, volto no começo de janeiro e é possível que em fevereiro eu esteja em março descendo pelo buraco do jardim. É possível que na esquina próxima minha alma espere a tua, que juntas cruzem a rua e procurem um té para dos, com medialunas, é claro.

November 12, 2009

.
..
...
....
.....
......
.......
........
.........
..........